Aula 2 (19.4)
Fim das sessões sobre as representações de Portugal na literatura francesa dos séc. XVI e XVII.
Um primeiro percurso que se poderia intitular: entre as "delícias" e o horror, sobre o mar e em terra(s).
Foi aprofundada a noção de representação, que, por etimologia, significa voltar a tornar presente. Daí o uso no mundo teatral. Para nós, se existe um palco, é o da consciência (as ideias, palavra de origem grega com o significado de imagem). Quando Pageaux fala em imagens, também se trata do fenómeno mental.
No entanto, a representação em análise tem uma existência real, a da letra ou, como veremos depois, da imagem visual. É essa materialidade das representações que abordamos, descobrindo, através dos textos, fatos, paisagens, indivíduos, etc., que os autores julgaram dignos de ser representados.
Até agora, foram : J. Alphonse, F. Rabelais e M. de Montaigne (séc. XVI); Monconys, J. Colmenar e Ch. Dellon (séc. XVII), todos viajantes, que entraram en contato mais ou menos direto com Portugal ou com Portugueses (o "menos direto" referindo à mediação pelos livros, como no caso de Montaigne ou Colmenar).
Claro, essa lista não esgota todas as possibilidades. Pelo menos, três nomes merecem ser mencionados aqui:
1--Nicolas de Grouchy (1510-1572). Um dos raros tradutores entre as duas línguas! Traduziu em francês a História do descobrimento e conquista da India pelos Portugueses de Fernão Lopes de Castanheda (1551-1561). Para comparar, vejam o início da obra (clique sobre a imagem para ampliar):
2--Jean Nicot (1530-1600), embaixador de França em Lisboa em 1559-1561, encarregado das negociações para casar D. Sebastião com a princesa Elisabete, filha de Catarina de Medicis, conhecido por duas coisas: o seu dicionário de francês (Thresor de la langue françoise, 1604) e o adjetivo derivado do seu nome, a nicotina. Foi ele que importou em França o tabaco graças aos pés desta planta que cultivou durante a sua estadia em Lisboa.
3--Gabriel de Guilleragues (1628-1685), autor do romance epistolar simplesmente intitulado Lettres portugaises (publ. anónima, 1669). A obra é curtíssima, entrou no panteão dos clássicos da literatura francesa mas não tem quase nada a ver com Portugal, a não ser alguns nomes (toponimia, onomástica) e raras evocações. O autor só ficou conhecido no século XX. Teve uma primeira tradução em inglês em 1678 (Five love letters from a nun to a cavalier). E... em português? foi por Eugénio de Andrade (1969).
Precisou-se a noção conexa de relação, aqui, como marco histórico. Em alguns cristaliza-se o universo das representações: 1536 (estabelecimento da Inquisição em Portugal); 1578 (derrota de D. Sebastião); 1581-1640: período da Monarquia Dual.
Leituras complementares:
1--Jean Nicot, vida e cartas de Lisboa.
2--Montaigne e o Brasil, um artigo em português de Frank Lestringant.
Para comentários:
se fizesse um balanço de uma "imagem" de Portugal, qual seria? Satisfaz (em termos objetivos e subjetivos)? Surpreende (conforme o que se imaginava)? Estimula (para saber mais)?

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