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Aula 4 (26.4)

1--Dois acréscimos à aula anterior.
1-1 A propósito da etimologia "imperialista" do Essai statistique de 1810: em 1796, Jean Baptiste Carrère publicou em Paris o Tableau de Lisbonne en 1796. Explica que o nome Portugal deriva de Portus Cale (dérive, à ce qu'on croit, de Portus Cale, ou du port de Cale, ancienne ville située près de l'embouchure du Douro" (p. 341).
Os historiadores contemporâneos confirmaram essa explicação "pré-napoleónica"...
Poderíamos definir a história como um modo de representação que, proclamando o ideal da verdade, cai facilmente em ficções oportunas.

1.2- A propósito do livro de Caroline Wuiet, le Sterne du Mondego (1809). Sabemos que há pouco realismo, ou exotismo nesse texto. O objetivo da autora não é contar a sua vida em Portugal, nem do seu marido, oficial francês emigrado e servindo  o exército (o seu nome consta da lista dada por Castelo Branco Chaves em A emigração francesa em Portugal durante a Revolução (Biblioteca Breve, 1984, p. 89: "Joseph Aussidiemer" para Auffdiener)
Essa autora foi retratada no estilo neo-clássico; uma leitura complementar sobre a artista.

2--Portugal nos palcos franceses: o caso de Dom Sebastião
O século XIX adora o teatro, falando e cantando; o rei desaparecido em Marrocos é uma das person-nagens de destaque pela sua dimensão trágica e romântica.

2-1 O melodrama de Dekock e Théodore encena o trovador português "Henriquez", um nobre liso que alegremente viaja "pelas Espanhas" tocando o alaúde, estereótipico do músico renascentista europeu: Le troubadour portugais (1815).
Vejam a incapacidade de reproduzir (representar é também reproduzir com meios de comunicação diversos, a começar pelas palavras) quanto aos nomes das personagens.

Cartaz para teatro de marionnetes (des. Louis de Butte, 1880; collection MUCEM).


2-2 O dramaturgo francês Eugène Scribe e o compositor italiano Caetano Donizetti deram ao grande repertório operático uma obra intitulada Dom Sébastien roi de Portugal, cuja estreia se deu em Paris em 3 de novembro de 1843.
Cinco anos antes, uma tragédia de Paul Foucher, estreiada em Paris em 9 de novembro de 1838, tinha encenado o rei infeliz: Don Sébastien de Portugal.
Vejam a ortografia da época, meio afrancesada, meio-acastelhanada ("Don").

Lemos e ouvimos quatro trechos:
--a chegada de Camões (I 3-4); o coro dos Árabes (II 8); a descrição do tribunal da Inquisição com a abertura do acto IV; enfim, uma aria muito famosa, a cavatine de Sébastien (tenor), "Seul sur la terre" (fim do acto II).
Vejam a obra integral (1998; qualidade limitada); oiçam a cavatine (a atualidade em 2018) interpretada por Enrico Caruso, Roberto Alagna (com legendas em francês e espanhol), Luciano Pavarotti, Lawrence Brownlee ou Jerry Hadley (recital), entre outros interpretes.

O cartaz acima ilustra a popularidade do tema ao longo do século XIX.

3--Os Lusiadas em francês: comparação das traduções do primeiro canto da epopeia de Camões com o original (traduções francesas de 1735, 1825, 1842): "Je chanterai", "Je chante", assim começam as adaptações em francês num modo virgiliano (o poeta romano da Eneida, assumida na tradição literária europeia como o modelo da epopeia). Relembra-se que no texto original o verbo principal ("cantando espalharei") só aparece no sétimo verso da segunda estrofe.
Outra lembrança: a página de título do livro de Caroline Wuiet contém dois versos em francês de "Camoens" ("le Camoens" como se refere em regra geral na época, da mesma maneira que se diz "l'Arioste", "le Tasse", portanto à maneira italiana).

4--Um marco histórico: 1867, ano da abolição da pena de morte em Portugal.
Autor de uma ficção breve e de forte intensidade, le Dernier Jour d'un condamné à mort (1829), Victor Hugo exprime em cartas enviadas a jornalistas portugueses a sua alegria quando aprende a notícia enquanto vive em Guernesey (UK).
Temos dois textos, o primeiro em português (perdeu-se a carta original) e o segundo em francês. Vamos (re)traduzir Hugo na sua língua (como fez Andy Moreira com os textos que Fernando Pessoa escreveu em francês, Ci-gît la France. Merde, sob o pseudónimo de Jean Seul de Maluret (éditions La Ligne d'ombre, 2009) !

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